sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Um Judeu Vitorioso

Novembro de 1937.
“Hoje foi mais um dos dias que pretendo apagar da minha memória, talvez o mais odiável dos dias. Nesse inferno para o qual me trouxeram, vejo pessoas morrerem dia a dia, muitas já não vivem, apenas existem para suportar os trabalhos que fazem para os porcos do exército. Mas amanhã tudo pode mudar, amanhã, darei um jeito de tirar minha família deste inferno.”
            Avharon abriu os olhos, acordou com o barulho do apito e viu que o trem estava parando na estação. Pegou sua mala e seguiu a multidão. Não sabia muito bem onde estava e não entendia o que as pessoas falavam, nem mesmo o que dizia nos letreiros luminosos que pareciam estar por toda parte. Aos outros era imperceptível, novidade para ele, quando na Alemanha, parecia que ele era um próprio letreiro luminoso, todos o olhavam como se fosse um pedaço de comida podre caminhando por ai. Mas ali era somente mais um homem comum. Moreno, cabelos castanhos, levando na face o semblante triste de quem tinha passado dois anos em um campo de concentração nazista, trabalhando para suprir as vontades dos soldados do exército Nazista. Sorriu ao reconhecer seu tio, que não era o tipo de homem tão imperceptível como Avharon. Elazar, seu tio, era alto, musculoso, e carregava no corpo as marcas de um passado cruel. As mãos calejadas pelo trabalho forçado acariciaram o rosto do sobrinho, que foi abraçado e recebeu tapas nas costas. Enfim, estaria seguro.
Seus pais ficaram no campo de concentração, não conseguiram fugir, e naquele momento era improvável que ainda estivessem vivos. Mas ele não queria pensar nisso. Ainda lhe doía no peito ter que deixar seus pais para trás para poder viver. Seu pai sempre seria seu herói, talvez por serem tão parecidos. O que Avharon sentia no peito era resultado do que cresceu ouvindo: a raiva que seu pai sentia por ter de levar a vida servindo aos alemães. Aquele homem que um dia sonhara em ser médico, que estudou para isso durante muito tempo, teve seu futuro cortado, e isso deixou marcas imensas de uma raiva insana.
Apesar de tudo na cidade parecer novo para Avharon, era como estar em casa. Qualquer lugar no mundo seria melhor para ele do que aquele quarto cheio de pessoas desnutridas com roupas em péssimas condições de uso, ou naquela cozinha em que não recebiam comida, mas sim, trabalhavam para servir os homens do exército. Depois de tanto tempo sendo um “bom judeu”, ele conseguiu fugir. E era naquela cidade brilhante que ele iria reconstruir sua vida.
Avharon dormiu por uma noite inteira, e uma longa manhã. Recebeu uma refeição simples, mas um banquete dos deuses se comparado ao que ele comia antes. Não entendia muito a língua dos que ali viviam, mas era um ótimo trabalhador, e talvez por isso tenha conseguido fugir. Procurou um emprego, para ajudar seus tios, e apesar do grande preconceito por ser judeu, conseguiu um trabalho de pedreiro. Ele aprendia rápido, e logo conquistou a confiança do chefe. Poucas palavras saiam de sua boca, mas muito trabalho era feito por suas mãos.
Apesar de aprender rápido, Avharon não tinha a técnica dos demais pedreiros. Não saber a língua deles atrapalhava na comunicação, assim, por mais que tentassem ensinar a ele algumas das suas técnicas, Avharon não entendia muito bem. Com seu esforço e boa vontade, aprendeu apenas observando e enquanto muitos eram dispensados, ele continuava seu trabalho.

A cidade luminosa se tornou padrão para Avharon, os letreiros começaram a fazer sentido, e aos poucos ele reconhecia frases nas conversas a sua volta. As dificuldades no seu emprego foram vencidas pelo seu esforço. Ele conquistou seu espaço pela persistência. E um dia, talvez, conseguiria provar para o mundo e para ele mesmo que sua raça e o lugar de onde ele veio não o definem, não o tornam diferente. Sua vingança era ser livre. Sua vontade era ser melhor. Sua conquista foi conseguir fugir. E talvez daqui a algumas décadas, alguém conte a sua história em uma redação da escola.
Danúbia Peters, aluna do 1º ano do curso de Eletrotécnica na F.E.T.L.S.V.C. turma 2112.

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